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"Fiz empréstimo, peguei a poupança do meu pai e perdi R$ 91 mil no bitcoin"

A dona de casa Gilmara Carcetti dos Santos, 53, de Carapicuíba (SP), sempre foi conservadora em relação a dinheiro. Ao longo de sua vida, só investiu na poupança ou em renda fixa e passou longe de investimento de risco, como ações.


Até que, no ano passado, conheceu a corretora de criptomoedas GenBit, com sede em Campinas (SP), que prometia rendimentos fixos mensais de 15%. Especialistas alertam que investidores devem desconfiar de quem promete ganhos fixos.


Gilmara acreditou na empresa e aplicou, junto com seus familiares, cerca de R$ 131 mil. Planejava usar os ganhos para pagar um tratamento médico.


Mas a GenBit não cumpriu o prometido. Pagou R$ 40 mil à família de Gilmara e, há seis meses, ela não recebe mais nada. Ou seja, a família perdeu R$ 91 mil, desconsiderando a inflação. Gilmara conta sua história abaixo.

"Usaria o dinheiro para meu tratamento de saúde"

"Sempre fui muito conservadora. Além da poupança, o único investimento que fiz ao longo da vida foi no 'overnight', uma aplicação da época da hiperinflação, nos anos 1990, que rendia taxas de juros diárias e protegia o dinheiro da desvalorização.


Em abril do ano passado, uma amiga da família foi até a minha casa e conversou com meu pai, um aposentado de 78 anos, sobre investimento em bitcoins. Escutei o papo e fiquei interessada, pois nunca tinha ouvido falar sobre essa tal criptomoeda.


A amiga contou que havia investido na corretora GenBit e que a empresa estava pagando até 15% ao mês em cima do capital aportado pela pessoa, sem atrasos.


Achei que seria um bom negócio, pois poderia usar parte do rendimento para arcar com os R$ 2.600 do meu tratamento de saúde. Hoje ele é pago pelo meu marido, que é autônomo.


Desde 2007, tenho doença de Behçet (mal crônico que pode causar feridas na boca e nos órgãos genitais, inflamação nos olhos e feridas na pele). No ano passado, também fui diagnosticada com hipertensão intracraniana, um tipo de transtorno neurológico.


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"Falaram que eram evangélicos, por isso investi"

Apesar de achar a proposta interessante, fiquei com um pé atrás, pois já tinha ouvido falar sobre pirâmides financeiras e morria de medo de cair em uma. Por causa das minhas dúvidas, a amiga da família nos passou o telefone de alguns conhecidos dela que diziam estar lucrando com a GenBit. Liguei, e eles me puseram em contato com superintendentes da empresa em Maringá (PR).


No mesmo mês, um dos membros da corretora me ligou e foi super atencioso. Em maio, ele veio até Carapicuíba para explicar à minha família e a outros investidores como o negócio funcionava. Bem articulado e persuasivo, falou sobre as maravilhas da empresa e da garantia de lucro. Disse que a empresa era 100% sustentável e que, mesmo que ela quebrasse, teria dinheiro para pagar todo mundo.

Na reunião, fez questão de salientar que ele e a diretoria do negócio eram evangélicos. Como também sou evangélica, achei que isso seria um tipo de 'selo de qualidade' e acreditei ainda mais na ideia. Hoje, no entanto, vejo que só usaram a religião para enganar a mim e aos outros.


"Investi dinheiro que meu pai juntou ao longo de anos".

Depois da conversa que tivemos com o membro da GenBit, peguei R$ 26.250 do meu pai, que ganha aposentadoria de R$ 1.700 por mês e havia guardado esse dinheiro ao longo de anos. Investi na corretora em maio do ano passado. Depois, meu marido entrou com R$ 26.250, meu irmão com outros R$ 26.250 e meu pai com mais R$ 26.250.


A promessa era de que eu receberia cerca de R$ 4.000 por mês ao longo de três anos. As primeiras parcelas foram depositadas, e eu fiquei empolgada. Acabei pegando um empréstimo no banco e investi mais R$ 26.250 na empresa.


O total investido pela minha família foi de R$ 131.250. Só recebemos R$ 40 mil.


Não pagam nada desde agosto".

Desde agosto do ano passado, não pagaram mais nada. Já chorei de raiva e, às vezes, tenho vontade de bater minha cabeça na parede por pensar em como fui tão ingênua. Essa história mexeu bastante comigo. Minha saúde está ainda mais debilitada e meu organismo já começou a cobrar a conta.


Nesta semana, meu médico disse que a hipertensão intracraniana piorou e que, para não ficar cega, terei que passar por um procedimento para retirar líquido do meu cérebro. Por causa de todo esse estresse, resolvi mover uma ação contra a empresa, pedindo não só reparação pelos danos materiais, mas também pelos danos morais.


Empresa quer pagar com "moedas fictícias".

A GenBit disse que os atrasos no pagamento ocorreram por causa da "maxidesvalorização dos ativos digitais" e das "crescentes orientações" da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o órgão regulador do mercado financeiro. A CVM investiga a empresa e proibiu que ela faça oferta pública de investimentos.


A corretora disse que está trabalhando para regularizar as operações no prazo de 60 dias, mas diz que não vai pagar os investidores em reais ou em bitcoins, como prometido. O pagamento, afirmou, será com uma criptomoeda própria, chamada Treep Token (TPK), que poderá ser trocada por reais, bitcoins ou produtos e serviços de empresas parceiras da GenBit.


Essa suposta criptomoeda, porém, não existe em nenhuma outra corretora e não tem liquidez alguma. Clientes e especialistas ouvidos pelo UOL dizem que o a Treep Token não passa de uma "moeda fictícia".


330 processos só na Justiça de São Paulo.


Em pouco mais de um mês, dobrou o número de processos registrados contra a GenBit só na Justiça de São Paulo. São 330 ações até janeiro.


O Ministério Público do Estado entrou com uma ação civil pública pedindo o bloqueio de R$ 1 bilhão do grupo e dos sócios. O presidente do conglomerado é o empresário Nivaldo Gonzaga dos Santos, que toca o negócio junto com seu filho, Gabriel Tomaz Barbosa.


A empresa informou que não comenta ações judiciais e que está lidando com muita "naturalidade" com as investigações.


Fuja de quem promete lucro fixo, diz especialista.


Uma corretora confiável não promete rentabilidade fixa e não especula com o bitcoin, como faz a GenBit, segundo Diego Martins, diretor da Accripto, associação que defende direitos de clientes de corretoras de criptomoedas.


Ele afirma que os negócios sérios têm uma carteira de criptomoedas (wallet) para cada cliente na rede blockchain (tipo de livro virtual contábil que faz o registro das transações).


"Se a pessoa investe em uma corretora que promete lucros fixos e usa apenas uma 'wallet' para administrar o investimento dos clientes, pode ter certeza de que ela não está investindo em bitcoins, mas sim dando dinheiro para terceiros. Você estará correndo risco de cair em um golpe".




Fonte: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/01/21/genbit-corretora-bitcoins.htm

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